Motora

Motora – Ano 1.

O pontapé inicial para o surgimento do que hoje é a Motora aconteceu quando ainda estávamos na faculdade, no fim de 2016. Com 21 anos de idade cada, Eu, a Júlia e a Juliana decidimos transformar uma mera afinidade para realizar os projetos em grupo da universidade em uma forma de receber uma grana extra e ampliar o nosso portfólio. Como todas nós cumpríamos estágio na época, dividir a carga de trabalho parecia uma ótima ideia e por isso começamos a fazer uns trabalhos de freelancer juntas. Quando a coisa começou a dar certo, decidimos ampliar o movimento e nos apresentar ao mundo como um coletivo de design. O plano era desenvolver um trabalho mais artístico ou artesanal, vender produtos simples com as nossas estampas, pintar murais e experimentar um pouco das técnicas que a gente via por aí e tinha vontade de testar também.

Foi assim que o Coletivo Motora nasceu: despretensiosamente, mas com muita paixão pelo design e muita vontade de explorar novas linguagens. Se não fosse dessa forma, a gente sabe que não teríamos seguido adiante. Lidar com ansiedade e pressão não era o forte de nenhuma de nós e a iniciativa foi crescendo, mesmo, por conta da demanda que surgiu. De repente estávamos precisando cumprir com algumas questões burocráticas, que não tínhamos a mínima ideia de como funcionavam, mas com a ajuda e os conselhos dos nossos amigos, tudo foi se resolvendo. No meio de tanta novidade, lá por abril de 2017, minha irmã me envia um link e diz que eu deveria me inscrever para o programa YLAI, do qual ela havia participado no ano anterior e dizia ter mudado a sua vida. “Poxa, que legal, mas o programa é para empreendedores. Eu sou designer, não sou empreendedora” Foi o que eu respondi, assim que li os requisitos. “Ué, e a Motora, é o que?”. Boa pergunta.

É engraçado esse momento em que a ficha cai e a gente percebe que está construindo algo muito maior do que havia imaginado. Nosso coletivo na verdade já era uma empresa, de fato. Até escritório a gente já tinha, por conta de uma permuta. A gente lidava com clientes, assinava contrato, negociava, recebia pelos serviços, pagava impostos… E levava isso tudo com muita simplicidade, meio que seguindo o fluxo, uma coisa de cada vez. Depois de quase uma sessão de terapia, Monique, minha irmã, me convenceu que eu era elegível sim e que além de designers, nós três éramos, realmente, empreendedoras. Com aquele velho pensamento de “o não você já tem, o que vier é lucro”, decidi me inscrever, ainda duvidando que pudesse ser aprovada.

A primeira fase do processo seletivo é um formulário que você precisa preencher, sobre si próprio e sobre sua empresa ou iniciativa. Lembro que falei bastante sobre tudo o que a gente já discutia dentro da Motora, quase que diariamente. Sobre como temos poucas referências e inspirações femininas no design, especialmente enquanto líderes e donas de empresas. Essa realidade, aliás, era e ainda é algo que a gente luta para mudar, de todas as formas que podemos. Esse pensamento acompanha a gente desde os eventos que realizamos na faculdade, até os nossos TCCs e projetos pessoais que desenvolvemos. Lembro que um outro bloco de perguntas era sobre as nossas metas e listei todos os nossos sonhos… Assim foi. Minha irmã, que é administradora (e muito boa no que faz) me ajudou a formular isso tudo de um jeito mais objetivo e, aproveitando o embalo, mais ou menos na mesma época nos ajudou a definir um planejamento estratégico para a Motora.

Foi aí que a gente começou, de fato, a arrumar a casa. Percebemos que a existência do Coletivo não fazia mais sentido daquela forma e a gente precisava transmitir o quanto tínhamos amadurecido desde os primeiros passos, lá em 2016, até aquele momento. Começamos a reestruturar tudo: nome, marca, portfólio… e começamos a perceber que além de presente, a Motora poderia ser o nosso futuro.

Com tanta novidade, acabei até esquecendo que havia me inscrito naquele programa, mas qual não foi a minha surpresa quando recebi um email informando que eu havia sido aprovada para a segunda etapa do processo seletivo? Seria realizada uma entrevista online, em inglês. Não sei se eu tinha mais medo de passar ou de perder… na dúvida, eu decidi me esforçar. Confesso que ensaiei um bocado, mas ainda assim, algumas perguntas me pegaram de surpresa. Eu tive certeza que não seria selecionada, mas pouco tempo depois, eu descobri que estava enganada. Recebi a notícia de que havia sido aprovada e não só isso, mas fui a única baiana do grupo. Não deu nem tempo de respirar e já recebi um tanto de instruções para tirar o meu visto. Foi aí que a verdadeira saga começou.

Foi preciso correr contra o tempo para terminar toda aquela re-arrumação da Motora, que começamos sem nenhuma pressa. A viagem seria em Outubro e a gente não podia passar vergonha. Imagina? 250 empreendedores incríveis, de diferentes países, e eu. Foi uma loucura e o tempo passou tão rápido que, de repente eu já estava lá, em Atlanta, num hotel enorme, participando de palestras e workshops incríveis, escutando representantes do governo e de grandes empresas, conhecendo uma tonelada de pessoas da América Latina entre coffee breaks, jantares e happy hours. Algumas dessas pessoas eram designers como eu, outras acreditavam e lutavam pela mesma causa que a Motora, poucas tinham menos de 25 anos, a grande maioria cheia de experiência. Me senti pequena, mas pronta para aprender o máximo que pudesse.

O programa durou um mês e meio e eu não parei por um segundo. Durante um mês, morei em Cleveland, trabalhei ao lado de Arlene Watson, fundadora da Mobius Grey, empresa de design que existe há 20 anos. Todas as sextas, nós tinhamos um treinamento específico em alguma organização incrível como Think Box, FlashStarts, Ernst & Young e por aí vai.

Com o passar do tempo, fui descobrindo que, na verdade, não havia um grande abismo entre minha realidade e a realidade daquelas pessoas que dividiam o espaço do programa comigo. Descobri, aliás, que nosso negócio já estava muito mais maduro do que imaginávamos, mesmo que para a gente, tudo parecesse muito natural e que a gente vivesse uma eterna crise de ansiedade sobre a maneira como fazíamos as coisas (se estavam certas ou não, se é que existe isso de certo e errado).

A Motora sempre teve seus valores muito claros e disso nunca duvidamos. Nós sempre soubemos a mudança que queríamos ser e promover. Com certeza foi isso que me levou tão longe, naquele outubro de 2017. No entanto, a melhor forma de alcançar esse sonho através do nosso trabalho foi um enigma que demoramos para decifrar.

O grande divisor de águas foi quando assisti a uma palestra do Michael Bierut, sócio do Pentagram Design (grande referência). O título da apresentação era “Como mudar (pelo menos um pouco) o mundo com Design Gráfico”. Alí eu percebi o quão grande é o potencial educador do design, enquanto ferramenta de comunicação e enquanto linguagem (seja ela falada, escrita ou visual). Percebi que a nossa luta, aplicada na nossa profissão, tem, sim, a capacidade de transformar a maneira como a sociedade existe; o modo como as pessoas se relacionam.

Independente de quem seja o nosso cliente, desde que ele esteja disposto a ouvir um ponto de vista atual, diferente do seu próprio, e refletir sobre isso, ele é bem-vindo. Afinal, diagramar um cardápio, chamar a atenção para o item “Bebidas para elas” e ver a alteração acontecer de bom grado tem um valor tão grande quanto desenvolver uma marca incrível para uma micro empreendedora cheia de inseguranças ou para um evento do movimento feminista. Nós temos a responsabilidade de garantir representatividade a quem tem sido invisibilizado, seja quando desenhamos ícones, uma sinalização de banheiro ou ilustrações para uma animação. É algo tão sutil, mas é muito poderoso…

Passei a última semana do programa em Washington, mais uma vez com todas as 250 pessoas juntas e o sentimento já era muito diferente. Tudo aquilo que antes me deixava insegura, na verdade, se tornou combustível. Se eu estava alí, na embaixada do Brasil em Washington, apertando a mão do embaixador aos 22 anos, havia um motivo. Voltei nova e com muito mais certeza.

Departamento de Estado dos Estados Unidos — Washington DC.

Assim que voltei ao Brasil, comecei a organizar todas as minhas anotações e todos os insights que tive durante o programa. Quando fizemos a nossa primeira reunião formal de feedbacks, as novidades fizeram tanto sentido que planejar os próximos passos, pela primeira vez, não nos deu mais uma daquelas crises, aquele medo de “será que a gente tá fazendo tudo errado?” e os resultados já começam a se mostrar.

Já esse ano, quando habilitamos as avaliações na nossa página do facebook, uma cliente (e amiga) querida escreveu que somos vanguardistas. Aquilo foi especial demais e tinha tudo a ver com o que vínhamos discutindo nos últimos dias: nos mostra que questionar e trazer um pensamento diferente à essa indústria que repete incansavelmente, em sua grande maioria, a mesma fórmula de criação, é muito mais do que poderíamos imaginar: é ter coragem. Ver os pequenos sinais de que as coisas estão mudando e ver que a nossa maneira de pensar ganha cada vez mais espaço nos dá força para seguir a cada dia. Não é fácil, mas é um desafio que nos orgulhamos em aceitar. Afinal, mesmo meio sem saber o que estávamos fazendo, sempre estivemos no olho desse furacão e aqui ficaremos, torcendo pra que mais gente apareça e dispostas a escutar mais vozes, já que não podemos gritar por todas.

Texto originalmente publicado no Medium em Fevereiro/2018