Lampião da Esquina: o design como ferramenta de orgulho, memória e resistência queer
Antes do arco-íris virar símbolo de orgulho, já havia um Lampião aceso na esquina
Hoje, quando junho chega, marcas de todos os tamanhos vestem suas comunicações com as cores do arco-íris. Algumas fazem isso com compromisso real, outras só para não ficar de fora da conversa. Mas antes de o mês do orgulho LGBTQIAPN+ entrar no calendário institucional das empresas, houve quem precisasse disputar o direito básico de existir publicamente.
Entender essa história é importante porque toda marca, mesmo quando não fala diretamente sobre diversidade, carrega uma grande responsabilidade ao comunicar qualquer mensagem: o poder de construir imaginários que determinam quem pertence, quem é bem-vindo e quem pode ocupar determinados espaços.
Não representar um determinado grupo social em peças de comunicação (seja de forma consciente ou não) é colocar pessoas à margem da sociedade. É excluir e limitar o seu acesso.
É nesse contexto que surgem movimentos de resistência, como o Lampião da Esquina, jornal lançado em abril de 1978, em plena ditadura civil-militar brasileira. A publicação circulou até 1981 e se tornou um dos marcos mais importantes da imprensa LGBTQIAPN+ no Brasil. Segundo o Centro de Documentação Prof. Dr Luiz Mott, o Cedoc LGBTI+, o Lampião foi o primeiro jornal de circulação nacional feito “por” e “para” homossexuais.
Mas reduzir o Lampião a um jornal “sobre homossexualidade” é muito pouco. Ele foi também um projeto de linguagem, uma peça de design político, um artefato gráfico que enfrentava a moral conservadora da época não apenas pelo que dizia, mas pela forma como se apresentava.
Um jornal para sair do gueto
No Brasil do final dos anos 1970, ainda não existia a ideia de comunidade LGBTQIAPN+ como usamos hoje. O que começava a se articular era o Movimento Homossexual Brasileiro, em um cenário de censura, perseguição policial, patologização da homossexualidade e representação midiática quase sempre caricatural, depreciativa ou violenta.
Foi nesse contexto que, inspirados pela visita do editor da publicação mais relevante do movimento homossexual estadunidense, Winston Leyland, ao Brasil, um grupo de jornalistas homossexuais assumidos começou uma articulação que deu origem ao jornal Lampião da Esquina.
A edição 00, considerada ainda experimental, apresentou o conselho editorial do jornal formado por Adão Acosta, Aguinaldo Silva (sim, o escritor de novelas), Antônio Chrysóstomo, Clóvis Marques, Francisco Bittencourt, Gasparino Damata, João Antônio Mascarenhas, o pintor Darci Penteado, o crítico de cinema Jean-Claude Bernardet, o escritor e cineasta João Silvério Trevisan e o antropólogo Peter Fry.
Também foi apresentado o editorial-manifesto do jornal, entitulado “Saindo do Gueto”, que informa o leitor que o seu objetivo era destruir a imagem-padrão do homossexual como alguém condenado à sombra, à vergonha ou à infelicidade. A proposta era simples e radical: ocupar as bancas, falar de política, cultura, sexualidade, violência, prazer e cotidiano a partir de uma perspectiva, até então, quase sempre silenciada.
O Lampião fazia algo que hoje chamaríamos de “posicionamento de marca”: definia claramente quem queria representar, quais conversas pretendia provocar e qual visão de mundo defendia.
Esse posicionamento também aparece no próprio nome. “Lampião” acende, ilumina, revela. Mas também carrega uma provocação: a marca gráfica do jornal remetia ao chapéu de cangaceiro, acionando uma imagem ligada à virilidade e ao machismo para subverter, por dentro, o imaginário da masculinidade brasileira.
Julgue, sim, pela capa: o design que confrontou a ditadura
Diferente da máxima que sugere não julgar um livro pela capa, o Lampião da Esquina convidava o público a fazer exatamente o contrário. O design, nesse cenário, foi uma ferramenta de confronto: uma convocação visual para que o leitor, ao olhar para a capa, fosse obrigado a julgar o silêncio e a opressão da época.
As capas, diagramadas manualmente por Aguinaldo Silva e Adão Acosta (dois dos idealizadores do jornal e designers, ainda que não recebessem esse título na época) eram especialmente importantes porque o jornal não estava apenas vendendo informação, estava oferecendo reconhecimento.
E essa discussão continua relevante, mesmo hoje em dia.
Se a grande mídia ainda empurra corpos, desejos e identidades dissidentes para a invisibilidade, o simples ato de colocar certos temas em pauta já é um gesto político. Seja em campanhas publicitárias, catálogos, embalagens, sites ou redes sociais… Ao repetir determinadas representações e excluir outras, o design ajuda a definir o que pode ser normal, desejável ou possível.
O Lampião da Esquina rompeu esse ciclo ao assumir a responsabilidade de ilustrar a existência. Ao selecionar quais rostos e corpos evidenciar, o jornal não apenas denunciava as agressões sofridas, mas disputava o imaginário público, oferecendo uma referência de vida possível e saudável que a sociedade da época tentava apagar.
Tipografia, colagem e fotografia nas capas do Lampião
Ao observar as capas do Lampião, a tipografia se mostra como mais um gesto de resistência. A seriedade jornalística era constantemente subvertida por um design que fugia da estabilidade: o uso de pesos robustos e caixas altas não era apenas um recurso de hierarquia visual, mas uma tática deliberada para capturar o olhar em meio à poluição das bancas.
O design não temia a experimentação. Com intervenções gráficas e ornamentos, exemplificadas na edição 18, alinhamentos dinâmicos e palavras com pesos variados, criava-se um ritmo que era contrário a qualquer tentativa de estética domesticada ou clean, comum da imprensa tradicional.
Na edição nº 30, a palavra “PROSTITUTOS” é colocada em destaque sobre uma textura de fundo e dialoga diretamente com a fotografia de Álvaro Mayrink. Ao posicionar a manchete ao lado da foto de uma autoridade do Judiciário, símbolo de poder e virilidade, o design evidencia a hipocrisia de uma estrutura que, ao mesmo tempo em que julga e marginaliza determinados sujeitos, está atravessada pelas mesmas contradições.
O Lampião construiu um tom de voz próprio que, embora não seguisse um manual de marca estratégico, foi forjado na urgência de se fazer ouvir. A disposição dos elementos variava a cada edição, mas havia uma reincidência clara em conceitos de proximidade e conexão.
De um lado, a tipografia que saltava da página, utilizando termos de um vocabulário direto e incisivo como: ‘Matança’, ‘Homossexuais’ ou ‘Bichas’, que buscavam despertar a atenção do leitor e nomear as urgências da época. De outro, uma fotografia que optava pelo humano: enquadramentos de cintura para cima, focados na expressividade facial e em ambientes internos. Essa combinação criava um equilíbrio potente: enquanto as manchetes gritavam e exigiam atenção, os retratos traziam a naturalidade da existência, humanizando a resistência.
Representar sem reduzir
Um dos pontos mais interessantes das capas do Lampião é que elas não se limitavam a denunciar violência. O jornal denunciava, sim, perseguições, assassinatos e preconceito. Mas suas capas também insistiam em mostrar criação, humor, prazer, organização coletiva e uma vida possível.
Essa escolha é fundamental do ponto de vista do design e da representação. Em vez de mostrar apenas corpos violentados, o Lampião criava imagens de presença fazendo dele um meio de encontro: um espaço onde a política era discutida com a mesma urgência que o prazer e o cotidiano, provando que a existência, em si, já era um ato de rebeldia.
Esse é um aprendizado relevante para qualquer empresa que queira abordar diversidade. Representar grupos sociais apenas por suas dores reforça estereótipos tanto quanto ignorá-los. Mostrar complexidade também é uma forma de respeito.
A edição nº 32 é um bom exemplo. A capa reúne 11 travestis, um cachorro e uma bola de futebol, formando um time. A imagem apresentava travestis em um registro pouco comum para a imprensa da época: o da convivência, do afeto e da vida cotidiana.
Um projeto gráfico interseccional
Mesmo tendo sido criado por um conselho editorial formado por homens gays, o Lampião abriu espaço para pautas que iam além da homossexualidade masculina. Suas capas abordaram feminismo, aborto, racismo, movimento negro, anistia, trabalhadores, travestis, lesbianidade, Igreja, prostituição masculina, violência de Estado e cultura.
Isso não significa que o jornal estivesse livre de contradições. Pelo contrário: parte da sua importância está justamente em revelar as tensões de um movimento ainda em formação. Mas, visualmente, o Lampião já ensaiava algo que hoje chamaríamos de uma comunicação mais interseccional: entendia que sexualidade, raça, gênero, classe, religião e política não estavam em gavetas separadas.
Na capa de abril de 1979, por exemplo, palavras como “lesbianismo”, “machismo”, “aborto” e “discriminação” aparecem em letras grandes, criando uma superfície gráfica de enfrentamento. As capas não buscavam ser bonitas no sentido convencional do termo, elas queriam ser vistas
O que o design de hoje pode aprender com o Lampião?
O Lampião da Esquina é parte da memória LGBTQIAPN+ brasileira, mas também é parte da memória gráfica do país. Suas capas mostram que design não é apenas estética, tendência ou composição.
O impacto dessas publicações não está apenas em mostrar pessoas LGBTQIAPN+, mas na forma como elas são mostradas. Quando determinados corpos surgem repetidamente associados à violência, ao escândalo ou à marginalidade, essas relações passam a parecer naturais. Quando aparecem em situações de afeto, amizade, trabalho ou celebração, outros modos de existência também se tornam possíveis de imaginar.
Para marcas, estúdios e profissionais criativos, revisitar o Lampião é um convite importante. Não para transformar sua história em uma referência estética vazia, mas para lembrar que visibilidade sempre foi uma disputa. Isso significa que posicionamento não acontece apenas em manifestos ou campanhas sazonais. Ele também aparece nas imagens selecionadas para um site, nas histórias que recebem destaque e nos públicos que são constantemente representados, ou, esquecidos.
Afinal, nem toda marca precisa se posicionar sobre todas as causas. Mas toda marca faz escolhas sobre quem representa, quem convida para a conversa e quais valores reforça ao longo do tempo.
Antes de qualquer campanha colorida, houve jornais censurados, corpos perseguidos, editores fichados, leitores procurando reconhecimento em páginas impressas e capas que precisavam gritar para atravessar o silêncio.
O Lampião da Esquina evidencia que as escolhas gráficas nunca são neutras e que, às vezes, uma capa é mais do que uma capa: é uma forma de dizer “estamos aqui”.
Ficou com preguiça de ler tudo e rolou direto pra cá? Aqui vai um resumo:
O que foi o Lampião da Esquina?
Foi um jornal brasileiro lançado em 1978, durante a ditadura civil-militar, que se tornou um marco da imprensa LGBTQIAPN+ no país ao tratar de política, cultura, sexualidade, violência e direitos a partir de uma perspectiva homossexual. Além de sua relevância histórica, o Lampião também se destacou por utilizar recursos gráficos, editoriais e visuais para disputar narrativas e construir novas formas de representação.
Por que o Lampião da Esquina é importante para a história LGBTQIAPN+ no Brasil?
Porque ampliou as formas de representação de pessoas LGBTQIAPN+ em um período em que a mídia frequentemente as associava à marginalidade ou ao escândalo. Ao apresentar outros retratos possíveis dessas vivências, o jornal contribuiu para transformar o imaginário social em torno dessa população.
O que as capas do Lampião da Esquina ensinam sobre design?
Elas mostram que design é muito mais do que uma questão estética. A escolha de imagens, palavras, hierarquias visuais e narrativas influencia a forma como pessoas, grupos e temas são percebidos. Para marcas e organizações, isso significa que cada peça de comunicação também ajuda a construir significados e percepções sobre o mundo.
O que empresas podem aprender com o Lampião da Esquina?
O jornal demonstra que comunicação não serve apenas para informar, mas também para construir percepções e fortalecer posicionamentos, mesmo nas decisões mais sutis. As escolhas visuais e narrativas de uma organização comunicam valores antes mesmo de qualquer discurso institucional.
Uma marca precisa se posicionar sobre causas sociais?
Não necessariamente sobre todas as causas, mas não se posicionar, já é um posicionamento. Toda marca faz escolhas sobre quem representa, quais histórias conta e quais valores reforça em sua comunicação. Mesmo sem fazer declarações abertas sobre o tema da diversidade, a decisão de “não se posicionar” já está passando uma determinada mensagem para o seu público.
AUTORAS: Lígia Évora e Luana Petter
Este texto foi produzido pela Motora a partir de pesquisa documental sobre o jornal Lampião da Esquina, com apoio de fontes acadêmicas e acervos públicos.
FONTES CONSULTADAS:
CEDOC LGBTI+ — Centro de Documentação Prof. Dr. Luiz Mott, acervo digital dedicado à memória e à história da população LGBTI+ no Brasil.
LAMPIÃO DA ESQUINA. Direção de Lívia Perez e Noel Carvalho. Brasil: Doctela, 2016. Documentário, 80 min.
MACRAE, E. O jornal Lampião da Esquina. In: A construção da igualdade-política e identidade homossexual no Brasil da “abertura” [online]. Salvador: EDUFBA, 2018, pp. 137-164. ISBN 978-85- 232-1998-7. https://doi.org/10.7476/9788523219987.0011.
QUINALHA, Renan. Lampião da Esquina na mira da ditadura hetero-militar de 1964. Cadernos Pagu, Campinas, n. 61, e216104, 2021.

